
Algo que me chama atenção ao ler o Pentateuco — os primeiros cinco livros da Bíblia — é como ele valoriza a memória. Nas Escrituras, a memória não é apenas uma capacidade da mente, mas um ato espiritual, comunitário e teológico. A fé do povo de Deus é construída sobre a lembrança do que o Senhor fez; as festas e celebrações serviam como memoriais, para que as novas gerações conhecessem e aprendessem com os atos de Deus no passado.
Mas o que é a memória? De modo geral, ela está ligada ao passado: guarda, interpreta e dá sentido ao que já aconteceu. Através da memória, formamos nossa identidade, tanto como indivíduos quanto como comunidade.
Infelizmente, a nossa sociedade costuma olhar para o passado com certo desprezo. Por isso, muitas vezes tentamos reescrever a história por causa de descontentamentos. Quando isso acontece, tudo ao nosso redor é afetado: as novas gerações repetem os mesmos erros; trocamos a verdade pela conveniência; perdemos nossa base moral e cultural; esquecemos quem somos e de onde viemos.
No livro O Peregrino, de John Bunyan, o personagem Cristão é ajudado pela memória a vencer os desafios de sua caminhada. Em alguns momentos, seus erros do passado tentam condená-lo; porém, ele usa a memória para entender o presente e conseguir seguir em frente.
Como cristãos, devemos ver a memória como um “grande palácio interior, onde o ser humano encontra a si mesmo e a Deus”, como disse Agostinho. O cristão enxerga o passado, por meio da memória, como um instrumento da graça — é dela que vêm os fundamentos da vida de fé. A memória forma a teologia do cristão e se reflete em suas atitudes. A moral, a ética e o modo de viver de um cristão nascem da lembrança da obra de Jesus revelada nas Escrituras.
A memória está intimamente ligada ao coração. Quando Jesus disse “fazei isto em memória de mim”, na ceia antes de sua morte, convidou os cristãos a guardarem em seus corações este gesto que recorda sua entrega e morte — sinal do amor de Deus e expressão do perdão dos pecados.
[Texto de Newton César]
